Inovação, design, sustentabilidade e expressão de marca | Economia circular como estratégia de negócio no Brasil e no exterior.
Moda, Design, Estamparia, Estúdio, Fashion, Cradle to Cradle, Brasil, Brazil, Arquitetura, Cultura
3024
single,single-post,postid-3024,single-format-standard,ajax_fade,page_not_loaded,boxed, vertical_menu_transparency vertical_menu_transparency_on,,qode-theme-ver-5.1,wpb-js-composer js-comp-ver-4.3.3,vc_responsive

Economia circular como estratégia de negócio no Brasil e no exterior.

1

19 ago Economia circular como estratégia de negócio no Brasil e no exterior.

Há algum tempo, na busca de melhoria contínua, através de muitas pesquisas e inspirações, nos deparamos com uma grande idéia que nos chamou bastante a atenção. Essa idéia,  trata-se de um conceito global, que marca o pensamento contemporâneo de sustentabilidade e inovação.


Chamada de “Cradle to Cradle”, numa tradução direta, “do berço ao berço” oposto do “cradle to grave” (do berço à cova). Esse paradigma para a indústria, inspira a inovação para criar um sistema produtivo circular  (daí a expressão “do berço ao berço”) onde não existe o conceito de lixo. Para Cradle to Cradle tudo é nutriente para um novo ciclo e resíduos são de fato nutrientes que circulam em ciclos contínuos.

Desde a revolução industrial, há mais de 200 anos, adotamos um modelo de produção linear, baseado em “extrair – fabricar – utilizar – descartar” (e às vezes reciclar ou incinerar). A sustentabilidade como conhecemos, acaba nos dizendo a continuar fazendo as coisas do mesmo jeito, apenas com menos intensidade. Mas, desacelerar sem mudar a direção apenas transfere os problemas para o futuro: Ser “menos ruim” não é ser bom.

A Ratoroi, teve uma conversa com o Alexandre Gobbo Fernandes, que é sócio-fundador da EPEA Brasil e responsável pela difusão do conceito "Cradle to Cradle" no país, através de palestras e programas de capacitação. É dele o prefácio do livro “Cradle to Cradle. Criar e reciclar ilimitadamente", lançado no Brasil pela editora Gustavo Gili Brasil.

Alexandre está a frente do escritório EPEA Brasil localizado em Florianópolis, SC, e nos conta que trabalhar dentro da lógica circular é um grande desafio. Mas o interesse verdadeiro das empresas aumenta a cada dia. Abaixo, convidamos o Alexandre para explicar um pouco mais desse cenário de atuação, fazendo uma análise de toda a trajetória da aplicação dessa estratégica de negócio até o produto final no Brasil e no exterior.

Como o Cradle to Cradle tem revolucionado a forma de pensar e desenvolver a gestão, processos e produtos no mundo?

Da parte dos consumidores, você tem a lógica de sustentabilidade de reciclagem, de reaproveitamento. O cradle to cradle é algo que dá uma base científica para tudo. O conceito é fantástico, quem não conhece quando escuta essas três palavras, entende na hora. De todo público que já atingimos nesses três anos, 90% dele pelo menos fica entusiasmado com as possibilidades. É muito inspirador e, os cases pelo mundo afora tem crescido vertiginosamente com empresas que aderem a certificação, ou alguma etapa do conceito de forma livre.

A lógica da economia circular, onde o Cradle To Cradle é um grande norteador, está sendo discutida no Fórum Economico Mundial.  A Comunidade Européia já adotou essa lógica como uma das vertentes de transformação de mercado. A certificação está consolidada e expandindo, tanto quanto o conceito mais macro que também cresceu.

Esse ano tenho recebido vários convites para disseminar o trabalho, em palestras e eventos. No lado prático existe a barreira, a mesma do design, de sair do mínimo necessário e começar a trabalhar com um pouco mais do que o mínimo. A política dos resíduos sólidos no Brasil está sendo uma grande propulsora. Ela fala de responsabilidade compartilhada, logística reversa, e os pilares para a economia circular . E Isso pode ser visto como uma grande oportunidade de criar modelos de negócio para multiplicar as fontes de receitas da empresa. É possível estimar que em nosso país a economia circular poderia capturar mais de “R$ 8 bilhões anuais em resíduos recicláveis e não aproveitados” (IPEA, 2010).

Cradle to Cradle é uma estrutura de trabalho que estabelece um plano de inovação para linhas de negócios e produtos, para tomar decisões corretas e gerar receitas a curto prazo. Os produtos geram impactos ambientais positivos, possibilitando prosperar sem necessidade de mitigar impactos ambientais negativos, superando regulações ambientais complexas e eliminando o sentimento de culpa pelo consumo, por parte dos clientes. O produto desenhado na lógica Cradle to Cradle resolve tudo isso. Incentiva uma logística reversa mais inteligente, que recupera os materiais, não tratando como se fosse resíduo, como se fosse insumo. Como o fenômeno da latinha de alumínio. “Se você jogar ela no ar, ela não cai no chão porquê sempre tem alguém que pega, pois o alumíno é valioso mesmo depois de descartado!”, brinca Alexandre. Uma lata de alumínio usada vale dinheiro, e nunca foi desenhada pra isso, nunca teve  regulamentação especifica, legislação, e uma indústria, ou um grupo industrial forte que planejou dessa forma, e mesmo assim reciclamos aqui no país,  98% de todas as latinhas de alumínio. É um produto que intuitivamente é perfeito pelas questões econômicas, sociais, ecológicas, alinhadas a uma questão de design industrial, e reciclagem latente.

Esse paradigma é o que precisamos levar para os outros produtos, pensando com essa inteligência. Tornar os outros produtos “uma moeda” no momento do descarte. Uma inteligência de regulamentação, de design, econômica, industrial, e de logística.

As indústria tem buscado alternativas com mais interesse. Um exemplo é o que nosso escritório tem feito com a Duratex. Eles buscam consolidar várias iniciativas relacionadas aos produtos, e a política de resíduos sólidos, dentro da Economia Circular, usando Cradle to Cradle para solucionar nas questões práticas da empresa. Estamos fazendo todo um estudo juntos desde o ano passado, adotando como estratégia o cradle to cradle e a economia circular como alicerce. Estamos treinando as pessoas, os gerentes e diretores estão lendo o livro e se familiarizando com tudo. No Brasil o EPEA é uma extensão, uma rede. Existe a central que é em Hamburgo (Alemanha) fundada pelo Michael Braungart, fundador e CEO científico do EPEA, que consolidou todo o conceito, focado no design químico dos materiais, atuando como agência científica durante 25 anos, desde quando nem chamava cradle to cradle.

Para disseminar o trabalho pelo mundo, eles criam contratos de parceria. Hoje nosso escritório em Florianópolis é um oficial partner do EPEA, o que significa que temos acesso a todos os materiais que eles produzem, que temos o selo para utilizar a marca, e que na etapa em que é necessário envolver avaliações químicas, da saúde dos materiais, encaminhamos a continuidade para eles, que fazem análises e avaliações, sugestões, entre outros desenvolvimentos tecnológicos.

Já  nosso escritório o EPEA Brasil é focado na estratégia do negócio, somos muito focados em construir a cultura coorporativa e o modelo de negócio, para  desenvolver o produto e desenvolver esquemas de logística. Uma avaliação de toda a cadeia produtiva à partir das novas demandas da realidade brasileira. O passo-a-passo. Ninguém sai do zero e vai direto ao cem. “Você sai do zero, e caminha em 20%, 30%, até chegar no que se pretende atingir até 2050, por exemplo”. A transformação é paulatina dos produtos e da empresa como um todo. Acreditamos que quem não busca a inovação, um dia vai ficar obsoleto.

Já houve uma empresa mais avançada em sua cartela de clientes avaliada pelo EPEA?

Todos estão começando, não existem produtos certificados no Brasil ainda, estamos todos maturando. Para uma certificação, é necessário avaliar a estrutura de produto, levantar os dados dos materiais, acionar a central e remeter.

Alexandre e como foi sua formação? Como você  teve acesso a esse novo universo?

Minha formação é de arquiteto, mas eu sou um planejador. Eu sempre fui bastante interessado em inovação e ao fazer uma especialização profissional em gestão de eco-inovação na França, descobri todo um novo mundo baseado nesse pensamento. Planejamento é nosso foco, trabalhar na complexidade de um plano, onde saímos da lógica da empresa que trabalha sozinha, e a colocamos numa cadeia circular. Não é fácil, mas todo o percurso é bastante recompensador.

Qual os objetivos do EPEA e o que gostaria de ver acontecer nos próximos anos?

Em termos ideais e  aspiracionais eu vejo que o Brasil como um todo está em um momento delicado em termos do desenvolvimento industrial. Estamos tentando buscar um modelo de desenvolvimento diferente, assim como as grandes nações do mundo, de ponta. Modelos, como a bioeconomia na Amazônia, a floresta em pé, e a própria política de resíduos sólidos.

Então no nível aspiracional eu gostaria que o governo, se deparasse com esse poder circular e que esse fosse um tema dentro do Ministério de Desenvolvimento da Indústria e Comércio MDIC, dentro do Ministério do Meio Ambiente, e nas Estratégias do Governo. Começasse a virar pauta assim como já virou pauta na União Européia.

No nível mais prático nosso trabalho hoje, que somos EPEA Brasil, está bem distante do trabalho dos EPEAS de desenvolvimento de produto e avaliações. Diante dos outros, vejo no Brasil ainda outra possibilidade de vocação. Temos vocação para criar modelos de negócio diferentes para o mercado em países em desenvolvimento, como o do Brasil, Índia, China entre outros, onde temos a dinâmica completamente diferente da Europa ou dos EUA. Como a lógica de pagar em várias vezes, que é praticamente um leasing que a gente faz de um eletrodoméstico. Temos a lógica de manutenção dos materiais, temos a cultura de troca entre materiais usados de item de amigos, há sites dedicados a isso. Temos também uma condição empreendedora na base da pirâmide no Brasil, muito pela política de resíduos sólidos que está incentivando muito. Os antigos catadores estão virando empresários desse ramo. Vejo todo um ecossistema combinado, que em minha opinião, é o melhor lugar do Brasil.

Designers como vocês da RatoRói, com coragem para desenvolver produtos dentro dessa lógica são poucos no Brasil, e exatamente onde a indústria têxtil e a de calçados pode ter seu diferencial, porquê ainda mantém suas cadeias completas. A barreira é superar o conservadorismo. Falando de Europa, lá tem fábricas que emprestam o Jeans, no estilo leasing, onde os usamos por 5 anos e pagamos esse empréstimo por mês. Depois desse tempo, o produto é devolvido para a Fábrica, remanufaturado no estilo boho, agregando o uso como ingrediente de desejo. Tem empresa de luxo que faz isso na Holanda chamada “Mud Jeans”, também existe outra marca na Venezuela, no mercado de exportação que esta nessa lógica.

Aqui estamos engatinhando. No Brasil ainda estamos querendo trabalhar só com Design. Design foi a revolução da década passada. Quando falo disso estou mencionando o Design pelo Design, quando pensamos em deixar tudo apenas bonito e funcional. Hoje em dia compramos produtos da China com design, então ainda estamos falando em adicionar design no produto, estética e ergonomia. Mas este é apenas o mínimo, a condição cine qua non para estar no mercado. Entendo que ainda precisamos adicionar muito design no produto, mas precisamos pensar além disso.

Outra pergunta interessante que precisa ser feita ao vender inovação é: Como esse produto vai ser comercializado? O produto inovador comercializado do mesmo jeito que um produto tradicional tem bem pouca chance de virar mainstream. A não ser que ele seja um substituto tecnológico de outro para fazer o que ele fazia, só que melhor. É mais resistente, mais leve, mais transparente, aí estamos pensando em outra lógica. Não é inovação disruptiva, é apenas incremental. Aqui no EPEA somos focados no cradle to cradle, e  para nós o mais importante é levar informação para as pessoas certas, para que tenham insights, pois estes são os agentes de mudanças. Alimentando as pessoas certas, elas se tornam propulsoras da transformação.

Esses dias li algo interessante que dizia que a lógica da produção industrial foi baseada na imagem da máquina e inspirou tudo que vivemos hoje, a melhoria da sociedade como um todo. Já a lógica da nova revolução industrial são os sistemas vivos. Essa lógica de pensar como isso pode ser feito. Assim como o Le Corbusier fez a máquina de morar e hoje os arquitetos sabem que não podem construir uma igreja como a máquina de rezar. Esse paradigma fez sentido na época do Le Corbusier e desenvolveu uma série de melhorias, mas hoje o paradigma para olhar um objeto e melhorar ele, é a logica dos sistemas vivos. Esse é o super insight, esse paradigma vai abrir inovação disruptiva em todos os cantos, na educação, no desenvolvimento de processos, de máquinas, e dos materiais.

Nesse momento precisamos de formadores de opinião que advoguem por esse conceito em todas as rodas. De grandes empresários, educadores à lideres da política. São esses núcleos que precisam receber essa informação.

VEJA MAIS: